Glifosato pode tratar câncer, sugerem estudos

Glifosato pode tratar câncer, sugerem estudos

Diversos estudos publicados nos últimos anos em revistas científicas sugerem que o glifosato possui propriedades de combate ao câncer. As pesquisas foram conduzidas por cientistas de universidades conceituadas e centros de pesquisa e saúde, além de terem sido revisados por especialistas.  

O primeiro desses estudos foi publicado em 2013 pelo Centro de Ciências da Saúde da Universidade de Tulane, Nova Orleans (Estados Unidos). Os pesquisadores expuseram as células cancerosas humanas in vitro ao glifosato e ao AMPA (ácido aminometilfosfónico), que é o subproduto do glifosato metabolizado. O experimento mostrou que ambas as substâncias inibiram o crescimento das células cancerígenas e promoveram a apoptose (morte celular programada), mas deixaram as células saudáveis ilesas. 

“Esse estudo fornece a primeira evidência de que o glifosato e o AMPA podem inibir a proliferação e promover a apoptose de células cancerígenas, mas não de células normais, sugerindo que elas têm potencial para se desenvolverem em uma nova terapia antineoplásica”, concluem os autores, que incluem ainda representantes do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia do Hospital Universitário da China Ocidental, Universidade de Sichuan, Chengdu, República Popular da China.

O mesmo grupo de pesquisadores publicou um estudo de acompanhamento no ano de 2015 e obteve um resultado semelhante. Eles expuseram linhas de células de câncer de próstata humana ao AMPA e uma substância química chamada ácido metoxiacético (MAA), concluindo que ambos os produtos químicos poderiam “ser usados como potenciais drogas terapêuticas no tratamento do câncer de próstata”.

Em outro estudo, publicado em 2016, a equipe testou sua tese em animais. Eles expuseram 25 ratos a duas doses diferentes de AMPA. Comparado a um grupo controle de 14 camundongos, o experimento revelou que “o tratamento inibiu significativamente o crescimento e a metástase de tumores de próstata e prolongou o tempo de sobrevivência dos camundongos. [Esses] resultados demonstram que… o AMPA pode ser desenvolvido em um agente terapêutico para o tratamento do câncer de próstata”.

A empresa Procter & Gamble possui a patente de uma droga farmacêutica que contém glifosato como ingrediente ativo e é projetada para matar células tumorais humanas de cólon, mama e pulmão. De acordo com a empresa, o glifosato em combinação com um regulador de crescimento chamado cloroprofam foi “potencialmente muito interessante, porque visava especificamente as células cancerígenas e também era eficaz contra [outros] vírus”.

De acordo com o portal Genetic Literacy Project (GLP), é preciso ter cautela porque os estudos sobre células cultivadas são notoriamente “não confiáveis”. Segundo dois especialistas que avaliaram os resultados desses estudos, porém, há motivos para ser otimista. 

A bióloga Mary Mangan, que revisou os artigos de 2013 e 2016, explicou ambos os estudos empregam técnicas e métodos amplamente utilizados, em geral: “Estas são estratégias razoáveis para investigações de pesquisa básica”. Depois de revisar os estudos, o epidemiologista e especialista em câncer Geoffrey Kabat, autor de mais de 150 trabalhos acadêmicos e dois livros sobre riscos à saúde, concordou.

“Essas descobertas são interessantes e parecem ser robustas. Relatos de outro laboratório parecem apoiar os achados da cultura de células AMPA e também demonstraram que o tratamento com AMPA inibe o crescimento e a metástase de tumores de próstata transplantados em camundongos nus atímicos. No entanto, outros estudos com animais inteiros, usando modelos animais diferentes (ratos e camundongos) e com amostras maiores, fortaleceriam o caso. Se estes testes derem suporte, poderiam ser feitos ensaios clínicos em humanos para ver se o glifosato e o AMPA podem ser usados para tratar o câncer humano”, sugere o especialista.

“Como esses são estudos preliminares pequenos, seria prematuro fazer muito alarde deles, embora os dados certamente sejam intrigantes. Apesar da histeria atual entre os júris preocupados que o glifosato é carcinogênico, o glifosato poderia ser uma terapia promissora para o câncer. Mas muito mais pesquisa teria que validar esses resultados antes de chegarmos a tal conclusão consensual. A cultura celular e até mesmo os estudos com animais geralmente não se traduzem em humanos, mesmo que sejam bem feitos”, completa Cameron J. English, editor do GLP.

Confira os estudos:

Glyphosate and AMPA inhibit cancer cell growth through inhibiting intracellular glycine synthesis

Aminomethylphosphonic Acid and Methoxyacetic Acid Induce Apoptosis in Prostate Cancer Cells

Aminomethylphosphonic acid inhibits growth and metastasis of human prostate cancer in an orthotopic xenograft mouse model 

 

Por  AGROLINK -Leonardo Gottems/Foto DP