Benefícios da integração lavoura-pecuária são demonstrados em dia de campo em Sinop

Benefícios da integração lavoura-pecuária são demonstrados em dia de campo em Sinop
Uma trincheira aberta em meio à lavoura, canteiros com variedades de consórcios para segunda safra e resultados obtidos por agricultores e pecuaristas em diferentes regiões do Cerrado brasileiro foram algumas das demonstrações sobre os benefícios dos sistemas de integração lavoura-pecuária apresentados no 7º Dia de Campo sobre Sistemas Integrados de Produção Agropecuária. O evento foi realizado na manhã desta sexta-feira, dia 28 , na Embrapa Agrossilvipastoril, em Sinop (MT).
Promovido pela parceria entre Embrapa, Sistema Famato e Senar-MT, o dia de campo contou com a participação de 730 pessoas de todas as regiões de Mato Grosso. Estudantes, técnicos, produtores rurais e profissionais ligados ao setor agropecuário percorreram um circuito principal com quatro estações temáticas e ainda puderam escolher entre outras quatro estações satélite para acompanhar uma última apresentação.
Entre os temas apresentados estavam a pecuária na integração lavoura-pecuária, a dinâmica dos nutrientes no solo e a perda de água em sistemas ILPF, opções de consórcios para segunda safra, a produção de maracujá, a qualidade da castanha-do-brasil em Mato Grosso, cultivares de feijão-caupi recomendadas para o estado, criação e conservação de abelhas sem ferrão e as novas cultivares de capim BRS Quênia e BRS Ipyporã. (veja detalhes abaixo)
Em cada estação, um ou dois palestrantes da Embrapa e de instituições parceiras explicavam ao público sobre o tema e tiravam as dúvidas que surgiam.
Esse foi o sétimo ano seguido que a Embrapa Agrossilvipastoril promoveu o evento e a cada ano o aumento do público mostra o crescente interesse pelos sistemas integrados de produção agropecuária. De acordo com pesquisa encomendada pela Rede de Fomento ILPF, Mato Grosso é o segundo estado brasileiro em área com esses sistemas. Em 2016 eram cerca de 1,5 milhão de hectares, mais do que o dobro da área com ILPF cinco anos antes.
Para o coordenador do evento e chefe-adjunto de Transferência de Tecnologia da Embrapa Agrossilvipastoril, Flávio Fernandes Júnior, um dos pontos positivos da programação deste ano foi a sinergia entre os temas das estações, de modo que uma completava a outra. Ele ainda destacou a tendência de crescimento do evento, o que demandará a avaliação de opções de formato para melhor atender ao público.
 “A gente precisa até pensar em como lidaremos com esse crescimento para manter a dinâmica do evento e sempre trazer novidades ao público que se interessa de fato pelo que a gente tem a apresentar”, disse Flávio.
O produtor rural Ademir Barbosa já trabalha com integração lavoura-pecuária. Para ele, o dia de campo é trouxe muitas novidades e oportunidades para o setor produtivo.
“Esse evento é um fomento à verticalização da nossa produtividade. Tanto na agricultura, quanto na integração, como na pecuária. Vimos uma infinidade de coisas novas. Novas forrageiras, a parte de integração de culturas, a estruturação de solo, etc.. Extremamente positivo, mostrando a eficiência da produtividade na nossa região”, ressaltou o produtor.
O técnico em agropecuária da Secretaria de Agronegócio e Meio Ambiente de Juara (MT) Clóvis Cândido também ficou interessado nas opções de consórcios e no benefício que trazem para o solo. De acordo com ele, as tecnologias apresentadas no dia de campo se aplicam muito bem à sua região, onde a agricultura é ainda recente.
“A agricultura está chegando, então têm que chegar de uma forma sustentável. De uma forma correta. As pessoas ainda não têm essa visão da importância dos consórcios. Temos de levar para elas para melhorar a estrutura física e biológica do solo. Essas são informações valiosas. Vamos tirar muito proveito e vamos transferir essa tecnologia para os produtores”, afirmou Clóvis.
Para os futuros profissionais, o conhecimento adquirido no dia de campo também será de grande valia não só nos estudos, mas também para o exercício da profissão.
“O dia de campo trouxe um conhecimento para nós que seremos tecnólogos, e ajudou a agregar conhecimento para que possamos levar para os agricultores um suporte técnico bom”, disse o estudante de tecnologia do agronegócio, Patrick de Oliveira.
O 7º Dia de Campo sobre Sistemas Integrados de Produção Agropecuária foi promovido pela parceria entre Embrapa, Sistema Famato e Senar e contou com apoio da Unipasto, Rede de Fomento ILPF e Acrinorte.
 
Confira mais informações sobre as estações temáticas do dia de campo
 
CIRCUITO PRINCIPAL
1 - Estação ILPF - Componente animal
As vantagens da adoção da integração lavoura-pecuária foram apresentadas pelo pesquisador da Embrapa Cerrados Lourival Vilela. Citando exemplo de fazendas em diferentes estados do Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste, ele mostrou como a ILP resultou em maiores ganhos de produtividade e de renda.
“Comecei minha apresentação trazendo exemplo de uma região onde chove 600 mm e terminei com outra onde chove 1.200 mm. Sempre fazendo uma comparação com uma região como essa do Médio Norte de Mato Grosso, onde chove 2.000 mm por ano. Isso mostra o potencial que a gente tem em uma área como essa que tem um período muito curto de seca. Essa é uma região extremamente favorável para trabalhar com integração lavoura-pecuária”, resumiu o pesquisador.
Vilela também destacou o uso da agricultura para custear as despesas com a reforma de pastagens e como a inclusão da palhada de capim beneficia as culturas anuais como a soja e o milho.
A otimização do uso da terra propiciada pela integração lavoura-pecuária e a economia advinda da ciclagem de nutrientes também foram abordadas pelo pesquisador. Dados apresentados por ele indicam que o aporte de nutrientes pela palhada de capim equivale a uma despesa de cerca de R$ 240 por hectare com fertilizantes.
Vilela falou ainda sobre o sistema São Francisco, que acaba de ser lançado pela Embrapa. Nesse sistema é feita a sobressemeadura de capins de porte alto, como Panicum maximum cv. Mombaça, na lavoura de soja. Com isso, o produtor agrega maior valor nutritivo à pecuária.
2 - Estação ILPF – Água e solo
Com o uso de uma trincheira cavada em meio a uma área de integração lavoura-pecuária-floresta, a pesquisadora da Embrapa Arroz e Feijão Janaine Saraiva abordou a ciclagem de nutrientes em um sistema integrado de produção agropecuária.
Ela mostrou o comportamento dos macro-nutrientes nitrogênio, fósforo e potássio no solo e como as raízes das gramíneas, como a braquiária, por exemplo, funcionam como uma bomba, levando o fósforo para baixo e trazendo o potássio para a superfície. Também mostrou como leguminosas, como o guandu plantado em consórcio com o milho e o capim, auxiliam na fixação biológica de nitrogênio e na descompactação do solo.
“Aqui dá para mostrar esse efeito das raízes dessas diferentes plantas, da gramínea e da leguminosa, tanto na estruturação de solo, com incorporação de matéria orgânica que vai favorecer o armazenamento de água, quanto na ciclagem de nutrientes”, resumiu a pesquisadora.
Nesta mesma estação, o pesquisador da Embrapa Agrossilvipastoril Sílvio Spera abordou o comportamento da água da chuva nos sistemas produtivos. Ele apresentou dados de pesquisa que mostram a maior eficiência dos sistemas ILPF na penetração da água no solo, contribuindo para o maior armazenamento e para a conservação do solo, uma vez que reduz-se as perdas por escoamento.
 
3 - Estação culturas anuais
Opções de consórcios não muito utilizados pelos produtores de Mato Grosso foram apresentadas na estação conduzida pelo pesquisador da Embrapa Agrossilvipastoril Flávio Wruck e pelo produtor rural de Lucas do Rio Verde José Eduardo de Macedo Soares Júnior, conhecido como Zecão.
Entre os consórcios demonstrados em campo estavam opções para descompactação do solo, redução da população de nematoides, fixação biológica de nitrogênio, aumento do teor de matéria orgânica, formação de palhada, maior disponibilidade proteica no pastejo, entre outros.
“De maneira geral, esses consórcios visam à melhoria das condições químicas, físicas e biológicas do solo ao mesmo tempo em que possibilitam a receita com a pecuária ou com a colheita de grãos”, explica Flávio Wruck, que abordou também a estratégia de semeadura, os cuidados no manejo e na condução de cada tipo de consórcio.
Zecão, que utiliza muitos desses consórcios, apresentou números que demonstram os ganhos de produtividade obtidos em sua propriedade.
“Estamos construindo o solo. Estamos melhorando a fertilidade de nosso solo. Somos a única região do mundo onde isso ocorre”, destacou o agricultor.
Confira abaixo os tipos de consórcios que foram apresentados no dia de campo e a indicação de uso de cada um deles.
- Guandu (anão ou arbóreo) com braquiária Paiaguás – chamado de feno tropical, esse consórcio visa o uso para pastejo do gado no período de seca. Com alto teor de tanino na fase de crescimento, o guandu torna-se palatável justamente na época da seca, sendo assim uma reserva proteica. Outros benefícios são a descompactação do solo e a fixação biológica de nitrogênio (FBN).
- Feijão-caupi com braquiária Paiaguás – usado para pastejo no período da seca, contribui não só para FBN, mas também para o aumento do teor de proteína na dieta do gado.
- Crotalária juncea com Paiaguás – usado para FBN e para formação de palhada para o plantio direto.
- Crotalária ochroleuca ou spectabilis com Paiguás – consórcios de dupla aptidão. Servem tanto para o pastejo como para formação de palhada. Além de fixar nitrogênio no solo, a ocroleuca ajuda a reduzir a população de nematoides na área.
- Girassol com Paiaguás – o consórcio possibilita a colheita dos grãos e a formação de uma pastagem para o período seco, ou mesmo de palhada para o plantio direto.
- Paiguás com coracama (pé-de-galinha), com guandu-anão, niger e nabo forrageiro – possibilita o pastejo, contribuindo para a melhoria do perfil do solo.
 
4 - Estação fruticultura
A cultura do maracujá, com grande potencial em Mato Grosso e já cultivada em regiões como a de Terra Nova do Norte e de Cáceres foi o tema de uma das estações do circuito principal do dia de campo.
Foram apresentadas cinco cultivares do fruto desenvolvidas pela Embrapa e por parceiros e que são recomendadas para Mato Grosso. Entre elas as cultivares de maracujá azedo BRS Gigante Amarelo, BRS Sol do Cerrado e BRS Rubi do Cerrado.
 Além disso, aspectos práticos da implantação, condução e manejo dos maracujazeiros também foram abordados nas apresentações da analista de transferência de tecnologia da Embrapa Agrossilvipastoril Suzinei Oliveira e do extensionista da Empaer Valmir de França. Outro tópico de destaque foi o mercado para o fruto no estado.
De acordo com Suzinei Oliveira, o cultivo de maracujá em Mato Grosso é realizado em pequenas propriedades, geralmente no entorno de agroindústrias. Ela afirma que a cultura tem bom potencial de crescimento, mesmo para atender ao parque industrial já em funcionamento.
 
ESTAÇÕES SATÉLITE
5 - Qualidade da castanha-do-brasil
 A importância das boas práticas na coleta de castanha-do-brasil foi ressaltada nesta estação satélite. A pesquisadora da Embrapa Sílvia Campos mostrou resultados de uma pesquisa feita após a capacitação de coletores do município de Itaúba. Apenas a adoção de práticas como a rápida quebra dos ouriços e a retirada da castanha da mata já foi suficiente para evitar a contaminação do produto.
“O coletor que usou as boas práticas não teve aflatoxinas em todas as amostras coletadas, de novembro a abril. O coletor que não usava as boas práticas teve contaminação nas amostras de novembro, dezembro e janeiro. Sendo que as de novembro e dezembro chegou a ser 20 vezes superior ao limite tolerado pela Anvisa”, disse a pesquisadora.
A baixa qualidade de castanha-do-brasil, sobretudo devido à contaminação por aflatoxina é o principal problema relacionado ao produto em Mato Grosso. Indústrias locais chegam a comprar matéria-prima em outros estados em busca de melhor qualidade.
 
6 - Feijão-caupi
Cada vez atraindo mais a atenção de agricultores mato-grossenses, o feijão-caupi foi o tema de uma das estações satélite do dia de campo. O pesquisador da Embrapa José Ângelo Menezes e o produtor Leandro Lodea, da LC Sementes, apresentaram cultivares recomendadas para o cultivo em Mato Grosso, como a BRS Guariba, BRS Tumucumaque, BRS Novaera e o último lançamento, a BRS Imponente.
 O feijão-caupi tem sido usado por muitos produtores como alternativa produtiva na segunda safra. Entre as vantagens da cultura está a maior janela de plantio e o amplo mercado, sobretudo internacional. Na safra 2015/2016 foram cultivados mais de 170 mil hectares em Mato Grosso.
A demanda pelas leguminosas de grão seco como o feijão-caupi, as chamadas pulses, tem sido crescente, sobretudo para atender países da Ásia, como a Índia.
 
7 - Meliponídeas
A preservação das abelhas sem ferrão, as chamadas meliponídeas, e o a criação desses insetos como complementação de renda foi o recado passado pelos palestrantes Jefferson Banderó, do Indea, e Expedito Stefanello, do Sebrae. De acordo com eles, até mesmo em ambiente urbano é possível trabalhar com a meliponicultura.
As abelhas sem ferrão são importantes não só na produção de mel de boa qualidade e alto valor agregado, como também na polinização de diferentes culturas.
 “Qualquer pai de família pode produzir o seu mel e até mel para vender. Por exemplo, o mel da jataí aqui em Sinop hoje está sendo vendido por R$ 250 o litro. Quer dizer, é uma atividade interessante como complementação de renda. Além da possibilidade de vender enxames”, ressalta Banderó.
 
8 - Forragicultura
Dois novos capins lançados recentemente pela Embrapa em parceria com a Unipasto foram apresentados durante o dia de campo: o BRS Ipyporã e o BRS Quênia. Plantados no campo agrostológico da Embrapa Agrossilvipastoril, os materiais foram apresentados por Marcos Roveri, da Unipasto, e por membros do Grupo de Estudos em Pecuária Integrada (Gepi).
O BRS Ipyporã é um híbrido de braquiária resultado do cruzamento entre B. ruziziensis e B. brizantha. Tem como principal característica a resistência à cigarrinha das pastagens. Já a BRS Quênia é um híbrido de Panicum maximum e é destinado à pecuária leiteira. 
Informações sobre pesquisas feitas na Embrapa Agrossilvipastoril, como o manejo do Quênia e o desempenho do Ypyporã também foram abordados.
“Nos primeiros quatro meses de coleta, o ganho médio diário de novilhos Nelore foi acima de 750 gramas/dia na época seca (junho-setembro/2016), sem nenhum tipo de suplementação alimentar, apenas sal mineral. O que demonstra o potencial desse material. Nesse ensaio, já foi necessária aplicação de inseticida na forrageira testemunha (concorrente comercial) devido à alta infestação de cigarrinha, enquanto Ipyporã não tinha apresentada sintomas de ataque”, explica o pesquisador Bruno Pedreira, responsável pela condução dos ensaios.
 
 
Gabriel Faria 
Embrapa Agrossilvipastoril 
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